Paulo,
Quando te conheci naquela sala, quando você me convidou para o seu msn, eu sabia que estava sendo envolvida por alguém muito especial. Seu jeito gentil e carinhoso derrubaram de forma definitiva todas as minhas barreiras. Eu só não sabia, que você era uma espécie de deus, para todas as frequentadoras daquela sala de chat. Se eu tivesse sabido disso, certamente teria me protegido mais. E por menos que as pessoas queiram acreditar, é possível sim, fazer muito mal também no mundo virtual.
Tomei minha decisão, meu amado.
Você tem uma vida pregressa antes de mim. E entendo que você respeite e ame suas pupilas, que certamente fizeram por merecer cada gota do sentimento bonito que você nutre por elas. E se eu não sei conviver com isso, e você não se preocupa em me poupar de saber exatamente o que acontece, acredito que essa relação está fadada ao insucesso. Por mais que você me admire e, possivelmente, goste de mim. Não sei se poderia incluir aqui a palavra respeito, porque algumas vezes, senti-me uma boba de verdade, esperando que vc me desse um pouco da atenção que eu sei, você tão generosamente dá a tanta gente. E quem sentiu-se feito de boba, com certeza não sentiu-se respeitada. Então, deixemo aqui registrado que reconheço seu carinho e sua admiração por mim. Nada além disso.
Assim sendo, e depois de as coisas terem ficado bem claras em nossa conversação hoje, quando você me disse que convidado é convidado, não dá mais para somente abaixar a cabeça perante você. A anulação de uma sub deve ser voluntária. Não feita da forma cruel como foste hoje para comigo.
Na minha casa, aos convidados é sempre servido o melhor. Sempre. Nunca oferecemos aos convidados o resto. Isso, fica para gente que é da casa. Além disso, não estava lá na sua “casa” virtual por intromissão. Como você bem lembrou, eu era convidada.
Não gosto também de ser chantageada. Isso pode dificultar nosso contato aqui. Que contato Monsieur? Ver sua luzinha acesa, informando que está no chat e a tela vazia? E eu, do lado de cá do micro, sofrendo, ansiando por você se lembrar de mim, quando sua “sub” permitir que você fale com outras pessoas? Você tinha razao quanto ao subentendido da frase que construi. Algumas vezes me pergunto quem se submete ou quem domina nessa sua relação com suas “pérolas”. Pude ver pelos seus poemas que a ânsia de suas emoções em relação a elas é a mesma que minhas próprias ânsias em relação a você. Só que no meu caso, eu sou a submissa. Eu devo obedecer. Calar-me. E faria isso, Valmont, de todo meu coração, se tivesse sentido em você eco, às minhas próprias necessidades. Mas foi só o silencio que encontrei. Era quase como se pudesse ver seu olhar superior sobre mim, ao passo que de igual maneira, podia ver seu olhar submisso para elas.
Acho louvável sua preocupação com a menina que está doente, é sua obrigação como homem e como ser humano cuidar do bem estar de quem sempre o serviu. Admirei isso em vc, e de certa foram foi mais um requisito para fortalecer a sorte das emoções que lhe devoto. Entretanto, o fato de elas existirem em sua vida, não lhe dá o direito de atrair pra você outras mulheres e dar a elas um tratamento que acredito, você mesmo desconheça o quanto pode doer.
Se você está feliz com suas pupilas, porque então entrar em salas de chat e atrair outras para você. Não faz sentido. Se elas o fazem tão feliz, fique somente com elas então. Ou será que você faz isso para mostrar a elas o quanto elas são adoradas? Se assim for, meu querido, permita-me repetir a frase que em momento de tensão e cansaço, eu construi. “pensei que as subs fossem elas...”.
Se estou feliz com você Valmont, não vejo sentido em sair em busca de outros dominadores. Se assim fizesse, é porque certamente estaria cumprindo uma ordem sua, que muito mais que prazer, poderia estar buscando auto-afirmação. E não vem me dizer que a natureza feminina se difere de natureza masculina não, que isso e balela de machista que quer enganar a mulher. Isso tem muito mais a ver com a natureza humana. E por menos que você queira admitir, Valmont, é só o que você é. Humano. A personagem que você criou até pode lembrar um semi-deus, mas antes de ser Monsieur de Valmont, você nasceu Paulo. E por mais que esse teatro que você viva seja envolvente e sedutor, é como Paulo que você vai morrer. E se você não resgatar a humanidade do Paulo, pode ser que no final dessa vida, você se veja sozinho.
Sim meu amor, porque não sei se você se lembra, algumas vezes os atores precisam ser substituídos. E quando você já não corresponder ao perfil do Monsieur de Valmond, que além de ser refinado, gentil, educado, tem que ser sensual – e o tempo, a despeito de sua fantasia ou não, vai passar para você e a lei da gravidade vai atuar, e suas formas já não sejam essas – e deixar de ser, não duvide meu lindo, que não é suas outras características que farão suas pérolas ficarem perto de você. Não se esqueça de como as subs gostam de ser tratadas: de vadias. E de uma vadia, meu amor, pode-se esperar tudo. Acho-o inteligente demais para não ser consciente de que “cadelas” quando estão no cio, não respeitam pedigree. E pode apostar Paulo querido, quando você falhar, e um dia você falhará, porque é quase tão natural quanto respirar, você então poderá sentir na sua própria pele, a dor que tantas vezes provocou. Ainda que “sem querer”, o que de verdade, eu duvido.
Disse a você lá em cima que tomei minha decisão. E o convido a presenciar até onde eu sou capaz de ir por você. Se você chegou até aqui, se está lendo tudo isso que estou lhe escrevendo, com certeza a essa altura já se decidiu a me excluir de vez de seu msn e de sua vida. Peço-lhe, porém, que faça uso da mesma racionalidade e frieza com que você realiza suas sessões e, espere um pouco mais para fazer isso.
Depois, algo me diz, que não será preciso excluir-me de seu msn.
Assista à minha sessão essa noite. Seremos três. Eu, você e Justine. Só nós três. E nesse jogo, eu garanto para você, a dor estará presente. Se haverá prazer ou não, isso é com você. A dor, eu garanto. Depois disso, sugiro que você peça às suas “subs” que façam o mesmo por você. Só não se surpreenda se ouvir uma negativa da parte delas.
Eu sempre te avisei Monsieur Paulo de Valmont, comigo não há meio termo. Sou mais que intensa. Sou mesmo VISCERAL.
Disse pra você que só havia amado dois homens na vida e que os perdi para a morte.
Disse pra você, que se um dia eu lhe dissesse que o amava, que era para você não duvidar. Disse pra você que quando amo, sou capaz de tudo. E tudo para mim vai muito além da superficialidade de uma relação virtual.
Perguntei a você se podia alimentar expectativas de um dia nos tornarmos um.
E você respondeu que sim.
Você não tem cumprido sua promessa.
Eu vou cumprir a minha.
Acho que você já aprendeu a me conhecer um pouquinho Paulo, e sei que no seu íntimo já adivinha o que vou fazer. Não te preocupa que além de vc e Justine, ninguém nunca saberá porque as coisas tiveram esse desfecho. E que você, possa finalmente saber que, mesmo tendo tido tão pouco de você, entreguei em suas mãos tudo o que eu tinha e que podia chamar de meu: a vida. E que, lá na frente, quando você já estiver bem velhinho, caso esteja só, possa chamar meu nome e sorrir, sabendo que de verdade, eu fui uma mulher que te amei além dos limites do aceitável.
Essa é uma decisão consciente Paulo. Não de uma mulher com raiva porque sentiu-se deprezada. Tampouco da “aleijadinha revoltada, carente e solitária”. Conheci demais a dor. Por mãos de pessoas que não me conheciam ou por pessoas que não gostavam de mim. Aceitei sempre e procurei perdoar, justamente por serem esses seus mensageiros. Não posso me obrigar a aceitar que alguém a quem aprendi a amar verdadeiramente me machuque uma vez mais. Não essa dor. Não na minha alma. Não posso permitir-me receber das mãos onde procuro depositar só amor, receba de volta o desrespeito e a indiferença. Aceitaria somente o carinho e a amizade. Mas nunca, quando acompanhados do desrespeito ao que há de mais sagrado em mim.
E antes que as cortinas se fechem depois desse nosso último ato, devo lhe dizer que imagino que você tenha sentido-se mal, invadido até, quando meu aluno ligou para você. Não o justificando, devo dizer, porém, que entendi aquele ato como uma linda prova de cuidado e carinho a mim. E embora você me tenha feito pagar caro por esse erro que eu não cometi, não fiz o mesmo com ele. Ainda que seja em mim que o castigo tenha recaído. E tenham sido minhas as lágrimas derramadas.
Por último, perdoa-me se não me dei conta da sua sensibilidade e falei com você nesses termos, mas você me conhece, sabe que não sou de calar a alma. Se você e um dominador difícil, não posso dizer que seja a mais doce das subs. Mas, um verdadeiro dom, sabe que o prazer da dominação esta quando confronta o rebelde aquele que luta, que se debate a se ajoelha ao final.
Quando o outro, o dominado aceita tudo, não se pode dizer que houve dominação. Ao fraco não se domina. Subjuga-se. Se esse é o objetivo final da relação D/s, acho que os títulos devem ser alterados. Passem a usar Subjugador e não Dominador.
Quanto a sua sensibilidade, acho que você também não fez muito caso da minha.
terça-feira, 22 de dezembro de 2009
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