terça-feira, 22 de dezembro de 2009

CAPÍTULO NOVE - A VISITA DE LESTAT

Noite estranha essa. O calor era muito, mas a brisa que vinha da noite obrigou-me a ir contra todos os procedimentos de segurança e dormir com as janelas abertas. Assim, com a leve carícia do vento noturno roçando minha pele, fui aos poucos deixando-me envolver pelos braços de Morfeu. O sorriso provocado pelas lembranças da última conversação com o MESTRE adorado repousava em meus lábios e tudo indicava que o sono seria povoado por sonhos doces e tranquilos.
Em algum momento impreciso desse caminho, entre a consciência do desperto e o coma do sono, um tremor viajou pelo meu corpo. Um arrepio intenso nascido do centro dorsal e que rapidamente se fez sentir em toda a extensão da pele. Eu não estava só.
Ainda que não pudesse abrir meus olhos, sabia que tinha mais alguém no quarto. A escuridão da noite protegia-o da minha visão, mas era sensível sua respiração. O quarto de repente ficou frio... gélido. Quando estendi a mão para pegar uma manta para me cobrir, alguém tomou meu pulso. Mãos geladas podiam ser sentidas em torno de meu braço. O medo delineou-se dentro de mim, mas o grito morreu na garganta. Uma espécie de transe tomou conta de mim. Já não sabia onde começava o sonho (?) e onde terminava a realidade.
O dono das mãos gélidas que seguravam firmemente meu pulso entre seus dedos, aproximou seu rosto de mim. A respiração era ofegante, mas nada que denotasse ansiedade ou desespero. Era leve e compassada. Isso ao tempo em que me assustava, também excitava. E ele sabia disso.
Com muita segurança e delicadeza, o estranho que me tinha sob seu dominio, afastou meus cabelos e encostou seus lábios, que como já podia adivinhar eram frios, sobre minha testa. Em seguida, mas da mesma forma carinhosa, sobre meus olhos, a pele do meu rosto e em cada novo toque, mais arrepios percorriam meu corpo todo. Já ansiava pela sua boca na minha quando, de forma decidida, desviou o caminho que vinha percorrendo até então e pousou seus lábios sobre meu pescoço. Era um beijo diferente esse. Como se mil agulhas me penetrassem a pele. E quanto mais se aprofundava nesse beijo mortal, tanto mais um torpor e uma paz tomavam conta de minha alma.
Gentilmente ele me foi deitando sobre os travesseiros e uma sensação de prazer intenso arrancou de dentro de mim um suspiro. Aquela sombra sabia que tinha chegado exatamente onde desejava desde que adentrara pela minha janela.
Sentia que a vida lentamente se esvaia de mim. Mas eu não queria que ele parasse. Agora o gélido de seu sua pele confundia-se com minha própria falta de calor. A morte já se anunciava para mim.
Ele sentia isso!
Eu aceitara meu destino.
Quando então, num rasgo de inconformismo, ele afastou de seu pulso o tecido que compunha a manga de sua camisa, cravou nas veias as unhas pontiagudas abrindo-a numa ferida pequena, mas o bastante profunda para fazer jorrar gotas densas de seu sangue. Levantou-me a cabeça e colocou entre meus lábios seu pulso ferido. Como criança sendo amamentada, comecei a sugar do corpo daquele estranho o líquido que me devolveria a vida, ainda que nos domínios da morte.
Ao fim disso, o Sol já se mostrava presente lá no infinito do horizonte. Ouvi de meu algoz e salvador que não poderia mais estar comigo. Senti-me Psiquê naquele momento, obrigada a amar uma sombra. Sem o direito de ver o rosto amado. Pedi-lhe então que me dissesse apenas o seu nome, para que na falta de um rosto, eu pudesse durante o resto de meus dias – e seriam muitos a partir daquela noite – adorar pelo menos um nome. Estava quase certa que ouviria o nome Lestat, quando uma voz grave e profunda sussurrou em meu ouvido: MONSIEUR DE VALMONT.
Com esse nome ecoando em meus ouvidos, acordei sobressaltada. Era dia e o sol já ia alto. Tomei consciência então de que havia sido apenas um sonho. Não fosse por dois detalhes: uma gota de sangue sobre a fronha branca de meu travesseiro e o cheiro de gozo de fêmea no ar.
Estiveste no meu quarto essa noite Monsieur?

Nenhum comentário:

Postar um comentário